
Agora o Brasil. Futebol no Brasil é complicado. Vejamos a Argentina: lá futebol é elemento de identidade, assim como aqui. Lá é festa, mesmo sofrendo um humilhante 4×0, porque então que aqui não?
Minha impressão é a seguinte: na construção da identidade nacional e futebol, se construiu, principalmente pós Copa de 70 e 82, que o futebol é algo inerente ao brasileiro, algo que não pode sair dele. Tanto que no mercado do futebol hoje, ser do Brasil é um adianto para qualquer negociação. Nisso, parece até que superamos o futebol, afinal tivemos o melhor jogador de todos os tempos, temos sempre grandes craques e gênios do mundo. Deixamos de ter grandes seleções e passamos a ser a seleção de futebol mundial.
Por isso nos achamos o país do futebol, não o país do futebol bonito – como nos chamam. Essa beleza que sempre foi nosso descaso com o adversário, nossa vontade de humilhar quem não está aos nossos pés, de “gastar” o futebol sobre os outros se perdeu principalmente após 86. Desde então são seleções questionáveis, seleções que envolvem como tudo que valoramos no Brasil: ganhando. Caso não o faça, só erros e fracassos são lembrados. Somente o auge do nosso futebol plástico (1982) foi isentado.
Se o Dunga peitou a Globo, se ele buscou resgatar a identidade perdida em vestir a camisa canarinho, ele pecou na proposta de futebol, que ele nunca poderia entender. Jogador campeão do mundo pela seleção sem brio coletivo tentou reeditar 94. Tiraram os maus elementos, não cristãos, a festa e se fez um grupo sempre questionado mas unido. E pela vontade ou vaidade, eles não queriam fazer de um povo hexa, nem esbanjar habilidade e ser hexa por acaso do futebol pelos brasileiros. Os 23 queriam calar a todos e vencer por si mesmos. Foi a dor de um grupo, não de um povo. Isso fica claro na volta dos jogadores. Indiferença de quem chega e, quem se importa eles preferem passar reto, pois estão chateado consigo mesmos. Talvez a reclusão para com a imprensa venha disso.
Ignoremos o óbvio: a mercantilização da seleção brasileira, que não joga mais amistosos no Brasil. Os craques que mal vemos jogar aqui, os interesses privados de jogadores, comissão técnica e dirigentes. Tudo isso precisaria mudar, mas fiquemos na mudança provável. Para o próximo técnico, que faça da seleção brasileira uma seleção técnica, uma seleção do povo e para o povo e para o mundo, para mostarmos a plástica que sempre cultivamos e cultuamos. Que seja com deuses do futebol, mas com deuses cristãos e gregos. Chulapas, Romários, Afonsinhos e Pelés fazem parte de nosso futebol. Pelo futebol-arte: se não jogarmos sete jogos 2014, que seja outro azar do futebol, mas que seja o futebol brasileiro em campo.
Aí vai uma dica, que estes sejam parâmetros. Que 2014 seja assim, oxalá hexa e com sobra.

Publicado em julho 17, 2010
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